
Num primeiro momento da vida, os progenitores determinam o legado da memória dos filhos, ao mandar colocar um 'microchip' no seu cérebro, que guardará para sempre as suas vivências, como se estivesse instalada dentro da cabeça uma câmara de filmar, que grava todos os frames dessa existência para, depois do 'último momento', serem editadas de acordo com a imagem que se pretende projectar, dos tempos vividos por esse indivíduo, na hora da despedida perante uma plateia que enaltece o editor por compilar de forma tão positiva esses instantes.
O filme, «The Final Cut», leva-nos a viajar pelos universos da invasão de privacidade, importância das tecnologias de informação no relacionamento inter-pessoal, evolução da ciência e resultados da influência da imortalização do ser humano através da imagem. A montagem das memórias pessoais, através da escolha de momentos felizes, e postura socialmente correcta, serve de absolvição social. A imagem que fica para sempre é idealizada por um editor (Robin Williams), no sentido de perpetuar vidas repletas de (falsa) felicidade. Porém, o 'delete' da guilhotina não alcança a mente daqueles que, directamente, sofreram com esses actos. O editor que carrega uma culpa do passado, ao descobrir-se 'chipado' , tenta a todo o custo tirar dúvidas que o atormentam, em relação a um acontecimento de infância. Quando está a trabalhar na última edição, desencadeia-se uma série de acontecimentos que resultam na sua morte.
A implementação desta tecnologia (no futuro) não ajudaria no tratamento de sentimentos de culpa, e pelo menos até aos 21 anos -- idade a partir da qual o indivíduo passa a ter conhecimento que vive com um chip dentro da sua cabeça -- toda a vivência decorreria do mesmo modo. A questão reside na legitimidade deste processo e nas várias invasões de privacidade que suscitam. A escolha dos pais e a posterior escolha do editor. Será aceitável os pais decidirem pelos filhos, algo que pode alterar completamente a forma de estar, ser e viver de um indivíduo? Um dos grandes legados do ser humano é o relacionamento e comportamento com outros que, independentemente de passarem por uma compilação de memórias num determinado sentido, viverão para sempre no interior daqueles com os quais estebelecem relacionamentos. Exemplo disso é a menina a quem tentam convencer da honorabilidade do pai e não é essa a imagem que guarda desse homem. Ainda relacionado com as questões éticas da privacidade, surge desde o início do filme a ideia do simples 'direito de não ser lembrado'. Afinal, existe ou não o direito de não querer ser lembrado após a morte? O ser humano é como uma borboleta que bate as suas asas numa cadência sempre desigual. A interacção dos indivíduos corresponde a diferentes tipos de dinâmicas comportamentais desenvolvidas durante a vida e ninguém será recordado da mesma maneira. O direito à individualidade deve ser mantido -- e não imposto.
A 'falta de privacidade' dos 'visionados' que têm o direito de não ser filmados e os tipos de relacionamentos desenvolvidos poderiam sofrer alterações, de acordo com a (não) implantação do 'microchip'. Os comportamentos deixariam de ter um carácter espontanêo e assim se perderia uma das maiores riquezas do ser humano. Tudo pensado. As sociedades passariam a ser estados policiais. Tudo controlado. A revolta contra esta prática surge no filme através de um grupo 'anti-Zoe' e dos seus protestos em cartazes com a seguinte mesagem: 'remember yourself', com a qual reivindicam o direito a não ser lembrado depois do corte final. As tatuagens que apresentam são uma forma de reivindicação, que os torna excluídos de uma sociedade onde esta acção é comum.
O filme, «The Final Cut», leva-nos a viajar pelos universos da invasão de privacidade, importância das tecnologias de informação no relacionamento inter-pessoal, evolução da ciência e resultados da influência da imortalização do ser humano através da imagem. A montagem das memórias pessoais, através da escolha de momentos felizes, e postura socialmente correcta, serve de absolvição social. A imagem que fica para sempre é idealizada por um editor (Robin Williams), no sentido de perpetuar vidas repletas de (falsa) felicidade. Porém, o 'delete' da guilhotina não alcança a mente daqueles que, directamente, sofreram com esses actos. O editor que carrega uma culpa do passado, ao descobrir-se 'chipado' , tenta a todo o custo tirar dúvidas que o atormentam, em relação a um acontecimento de infância. Quando está a trabalhar na última edição, desencadeia-se uma série de acontecimentos que resultam na sua morte.
A implementação desta tecnologia (no futuro) não ajudaria no tratamento de sentimentos de culpa, e pelo menos até aos 21 anos -- idade a partir da qual o indivíduo passa a ter conhecimento que vive com um chip dentro da sua cabeça -- toda a vivência decorreria do mesmo modo. A questão reside na legitimidade deste processo e nas várias invasões de privacidade que suscitam. A escolha dos pais e a posterior escolha do editor. Será aceitável os pais decidirem pelos filhos, algo que pode alterar completamente a forma de estar, ser e viver de um indivíduo? Um dos grandes legados do ser humano é o relacionamento e comportamento com outros que, independentemente de passarem por uma compilação de memórias num determinado sentido, viverão para sempre no interior daqueles com os quais estebelecem relacionamentos. Exemplo disso é a menina a quem tentam convencer da honorabilidade do pai e não é essa a imagem que guarda desse homem. Ainda relacionado com as questões éticas da privacidade, surge desde o início do filme a ideia do simples 'direito de não ser lembrado'. Afinal, existe ou não o direito de não querer ser lembrado após a morte? O ser humano é como uma borboleta que bate as suas asas numa cadência sempre desigual. A interacção dos indivíduos corresponde a diferentes tipos de dinâmicas comportamentais desenvolvidas durante a vida e ninguém será recordado da mesma maneira. O direito à individualidade deve ser mantido -- e não imposto.
A 'falta de privacidade' dos 'visionados' que têm o direito de não ser filmados e os tipos de relacionamentos desenvolvidos poderiam sofrer alterações, de acordo com a (não) implantação do 'microchip'. Os comportamentos deixariam de ter um carácter espontanêo e assim se perderia uma das maiores riquezas do ser humano. Tudo pensado. As sociedades passariam a ser estados policiais. Tudo controlado. A revolta contra esta prática surge no filme através de um grupo 'anti-Zoe' e dos seus protestos em cartazes com a seguinte mesagem: 'remember yourself', com a qual reivindicam o direito a não ser lembrado depois do corte final. As tatuagens que apresentam são uma forma de reivindicação, que os torna excluídos de uma sociedade onde esta acção é comum.
(Realizador: Omar Naim)
2 comentários:
Apologia do direito fundamental à privacidade:
Sou um adepto inveterado das novas tecnologias e olho para a mesma evolução com uma visão de desejo por um futuro menos catastrófico e desastroso (porque tal também é possível, fazendo a correcta utilização da tecnologia e dos seus respectivos avanços, em todas as áreas de investigação) - As novas tecnologias, na sua génese constante, não estão diametralmente opostas aos direitos fundamentais da humanidade. A humanidade é que não sabe tirar, por vezes, o devido proveito para a sua auto-evolução.
Os direitos fundamentais e garantias, surgem no sentido de criar “linhas-mestras”, guias para a vivencia, convivência e protecção do Homem, reconhecendo e tentando precaver regimes autoritários, totalitários, e absolutistas. Assim, no artigo 5º no capítulo X dos Direitos Fundamentais, estão previstos vários tipos de privacidade – desde o direito à intimidade e individualidade (etc.) ao direito à integridade da “imagem-retrato” versus “imagem-atributo”. Qualquer pessoa, antes de ser focada a sua ascendência, tem o direito à sua individualidade e intimidade. Cabe a cada um de nós, fazer a gestão do que deve e do que não deve ser transmitido.
Os regimes e estados autoritários têm início no berço e âmago da nossa educação pelos pais e famílias. É erro comum dos nossos pais, acharem-se “donos” e detentores da nossa existência, sob todas as suas formas. Todos temos, desde que nos tornamos fisicamente independentes, o direito aos nossos pensamentos mais profundos, à nossa intimidade, à nossa vida privada ou sexual. Os nossos pais, quais oleiros a trabalhar o barro, pretendem dar-nos a “forma” que acham que nos deve padecer, mas também essa forma é um direito que nos assiste, como seres individuais. Que seria da minha imagem-atributo e da minha honra objectiva (o conceito de pessoa no meio social que nos rodeia), perante a sociedade, se fossem “publicados” os meus devaneios de adolescência? E não apenas os meus – os de toda a gente.
Por mais poético e terno que possa parecer a projecção de uma imagem impoluta e “editada”, o meu cérebro não deixa de fazer a associação de imagens entre o “editor” do “The Final Cut” e a imagem castradora do censor do estado novo, munido do seu lápis azul, a corrigir e indicar o não deve ser publicado!
O ser humano, em toda a sua plenitude, é constituído por uma sequência de acontecimentos, de interacções, de defeitos e virtudes - É isso que nos incute individualidade, carácter e personalidade. Quem nos rodeia, não necessita de ter acesso ao fio condutor da nossa individualidade, pois tal informação deve ser apenas reservada a nós.
Somos muito mais do que a matéria física que apresentamos aos outros. No nosso cérebro, na nossa intimidade, nem mesmo o decoro do martelo moral pode ter acção. Serve-nos de resto, os princípios morais que nos foram incutidos, mas não os julgamentos alheios - pois também os outros têm o direito à sua intimidade, individualidade e privacidade. E tudo se poderá resumir numa única frase: A nossa liberdade acaba quando começa a dos outros.
Post Scriptum: A ficção científica, nas suas múltiplas representações, legou-nos já alguns filmes como “Blade Runner”,“Gattaca”, “Equilibrium”, “O Homem Bicentenário” (baseado na obra de Isaac Asimov – The Bicentennial Man), o “THX1138” ou mesmo o “Aeon Flux”. Todos eles, de uma forma ou de outra, referem-se às enumeras questões relacionadas com perdas de direitos fundamentais. Recomendo vivamente visualizarem com um olhar crítico e atento, os filmes supracitados (fala-vos o coração de um adepto fanático da ficção científica).
Pedro J. Ramos
Outra questão que me parece pertinente, é o facto da catadupa de perseguições que surgiriam com o objectivo de 'apagar' da memória uma ou outra cena indesejada.
As perseguições pessoais seriam uma constante, assim como, o arrombamento e saqueamento ao centro de arquivos.
Cada ser humano tem direito a um mundo secreto inteiramente seu, onde só deve entrar quem for autorizado.
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