terça-feira, 27 de novembro de 2007

'PowerPoint Is Evil' e 'PowerPoint Makes You Dumb'


-Comentário

O PowerPoint é uma ferramenta informática que, quando foi criada pela Microsoft, tinha o objectivo de facilitar a compreensão dos conteúdos numa qualquer apresentação sobre os mais variados temas.
A utilização deste programa tem suscitado os mais diversos comentários do ponto de vista da sua eficácia.
O professor de comunicação, Edward Tufte, escreveu um texto 'PowerPoint is Evil', no qual se revela muito crítico em relação às potencialidades desta ferramenta. O 'PowerPoint' pode criar dependência malévola e Tufte serve-se metaforicamente do efeito das drogas para estabelecer a analogia com a utilização (abusiva) do programa. Eis a ideia, descodificada, do professor: imagine a prescrição de um medicamento que supostamente é 'vendido' para operar milagres. Mal e recorrentemente utilizado, em vez de produzir efeitos positivos, acaba por se tornar pernicioso.
Tufte chama a atenção não apenas para o seu 'consumo' generalizado mas também para a banalização do uso do PowerPoint e refere que a forma gráfica (layout) incorre no perigo de secundarizar os conteúdos. No passado, as apresentações eram realizadas com o apoio de retroprojectores, de uma forma mais simples e menos densa. Muitas vezes, os oradores socorrem-se do PowerPoint para 'embrulhar' as suas comunicações, escondendo as insuficiências dos discursos. É como se se embrulhasse com um papel muito bonito e vistoso uma caixa quase vazia.
Tufte é também muito crítico em relação ao poder que o PowerPoint exerce nas escolas. No fundo, o programa provoca um efeito dissuasor da leitura e da escrita, algo que não se pode nem deve dispensar na comunicação. A simplificação das apresentações pode constituir-se numa mais-valia para o orador, se este estiver preparado para passar toda a mensagem que pretende -- e não apenas uma parte.
Evitar a contradição segundo a qual a utilização de muitas palavras pode causar dispersão na audiência mas o inverso pode gerar, igualmente, a fraca percepção dos conteúdos apresentados é a 'chave' para o sucesso do PowerPoint.
Tufte sublinha o contraste que se pode estabelecer na utilização de tabelas gráficas para explicar uma temática. Socorre-se do exemplo de um estudo sobre o cancro para distinguir a boa da má utilização. A 'imagem' pode ser muito interessante, mas se os dados não forem introduzidos correctamente as conclusões podem ser desvirtuadas e isso é algo que o PowerPoint não deveria promover. As cores e o 'belo' dos grafismos não podem, em circunstância alguma, servir de manipulação dos dados que se têm para usar. A mensagem tem de ser clara, rigorosa e directa. De simples compreensão. Se for confusa, através do excesso de cores ou gráficos, isso pode causar impacto visual mas certamente é inibidor do entendimento da mensagem que se pretende passar. Para o professor de Yale, o PowerPoint pode ser utilizado eficazmente, consagrando o princípio do respeito integral pela audiência.
No artigo publicado, em Dezembro de 2003, no New York Times Magazine, Clive Thompson considera que o PowerPoint pode gerar a 'imbecilidade' entre as pessoas 'PowerPoint makes you dumb'. Dá o exemplo da leitura de um relatório apresentado pela NASA, relativamente às causas de um desastre ocorrido com um vaivém espacial, concluindo que o acidente se deveu não apenas a falhas de natureza técnica, mas também a erros cometidos pelos engenheiros através da má utilização do PowerPoint. Para Thompson, como se pode inferir, este 'software', utilizado indevidamente, é perigoso ao ponto de desencadear situações de altíssimo risco. A mais popular ferramenta de apresentação de comunicações conhecida do mundo, com cerca de 400 milhões de cópias em circulação, coloca a Thompson uma questão incontornável: 'E se o PowerPoint nos estiver a estupidificar?'
Obviamente, representantes oficiais da Microsoft, como Simon Marks, apresentam teses contrárias e criticam as abordagens de Edward Tufte ( a quem acusa de ser um adepto fervoroso da 'information density') e Clive Thompson. Argumenta que esta ferramenta vem sendo adoptada, inclusive, nas altas esferas do poder, dando como exemplo a importância que Collin Powell lhe atribuiu junto das Nações Unidas, a propósito da utilização de armas de destruição maciça pelo Iraque.
Curiosamente, porventura sem se aperceber, Simon Marks acaba por atestar a tese de Tufte, segundo a qual o PowerPoint pode servir os interesses de quem não tem nada para dizer. Com efeito, ao não se ter confirmado a informação segundo a qual o Iraque estava na posse de armas de destruição maciça, talvez se possa inferir que Collin Powell terá utilizado o PowerPoint indevidamente, 'embrulhando' uma informação importante que se viria a revelar totalmente errónea. Com graves repercussões a nível mundial. Quase apetece dizer que o PowerPoint foi a arma de destruição maciça que Collin Powell utilizou para sustentar a intervenção dos Estados Unidos no Iraque e as teses da Casa Branca.
Considerando todas as ideias desenvolvidas por Tufte, Thompson e Marks, é legítimo concluir-se que o PowerPoint é uma ferramenta que pode ser simultaneamente construtiva e destrutiva. Depende da forma como é utilizada.

2 comentários:

Anónimo disse...

Que grandes apresentacoes esta ferramenta nos permite!

Pedro Sá disse...

Recomendo-te que falasses com o Prof. Luís Fábrica da FD-UCP. Ele é bastante crítico do programa, por considerar que pode baixar e muito a atenção dos espectadores quanto ao conteúdo de uma exposição.